Clima e mercado impõem ciclo de sobrevivência para a soja no Sul de Goiás
Atraso logístico na colheita e estreitamento da janela para a safrinha testam a saúde financeira de produtores em Morrinhos e região

O agronegócio no Sul de Goiás atravessa um março de 2026 marcado por um "efeito tesoura": de um lado, o excesso de chuva que trava as colheitadeiras; do outro, margens de lucro cada vez mais espremidas por custos elevados e preços internacionais em baixa. O ciclo 2025/26, que começou sob a incerteza da seca no plantio, agora enfrenta o cronograma de colheita mais arrastado dos últimos cinco anos, transformando a gestão das fazendas em Morrinhos, Pontalina e Piracanjuba em um complexo exercício de sobrevivência econômica.
O gargalo da colheita e a perda de qualidade
Apesar das dificuldades operacionais no campo, o cenário estadual aponta para um volume expressivo de produção. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Goiás deve registrar a segunda maior safra de grãos de sua história no ciclo 2025/26, com estimativa de 35,8 milhões de toneladas em uma área plantada de 7,8 milhões de hectares e produtividade média prevista de 4,6 toneladas por hectare.
Mas a retomada das chuvas após uma breve trégua em fevereiro trouxe um cenário crítico para o campo. De acordo com a AgRural, apenas 39% da área de soja no Brasil foi colhida até o final de fevereiro — um atraso significativo em relação aos 50% registrados no mesmo período do ano passado. Na região de Morrinhos, a estimativa é que cerca de 60% da área ainda aguarde a entrada das máquinas.
Esse atraso não é apenas logístico; ele compromete a integridade do produto. "O excesso de chuva gera impacto direto na qualidade do grão. Já temos relatos de soja avariada e 'ardida', o que resulta em descontos pesados nos armazéns e perda de produtividade", explica Arthur Chiari, presidente do Sindicato Rural de Morrinhos. Além disso, a oscilação entre umidade extrema e sol forte provoca a perda de peso do grão, que chega a ser colhido com apenas 9% de umidade, representando uma quebra financeira silenciosa de até 5% no faturamento bruto.
O risco da safrinha e a migração para o sorgo
O atraso na retirada da soja gera um efeito cascata imediato na segunda safra. No Sul de Goiás, a janela ideal para o plantio do milho safrinha encerrou-se tecnicamente em 20 de fevereiro. Com o calendário extrapolado, o produtor que ainda insiste no milho assume um risco climático elevado para o inverno.
"O plantio do milho entrou em um risco muito alto de não produzir ou produzir muito menos. A tendência agora é uma redução significativa na área de milho na nossa região, que pode chegar a 40%", projeta Chiari. Como alternativa para mitigar o prejuízo, muitos produtores estão migrando para as culturas do sorgo e do girassol, que possuem janelas mais flexíveis, embora com valor de mercado e liquidez distintos do milho.
Gestão de contas no "ano de vacas magras"
No cenário econômico, o produtor vive um momento de "contas apertadas". Com o vencimento da maioria dos custeios agrícolas fixado para 30 de abril, a necessidade de caixa obriga a comercialização imediata da produção, mesmo com preços estagnados na casa dos R$ 109,00 em polos como Rio Verde e Catalão.
Para o produtor rural Paulo Serafim, o momento é de resiliência e foco no cumprimento de obrigações. "Este é o ano das vacas magras, é ano de pagar conta. O cenário não promete grandes receitas; se conseguirmos pagar o que devemos, já será uma vitória. A estratégia tem que ser de contenção, vendendo o necessário para honrar os compromissos e esperando anos melhores", avalia Serafim.


